Jardim, horta, pomar, animais, ervas, pão, café, vinho, cozinha e pequenos produtos convivem num mesmo ecossistema. Caminhar pela propriedade permite acompanhar fisicamente uma parte daquilo que, em outros lugares, chega ao prato já separado de sua história.

Foi isso que mais nos interessou.

Não visitar uma fazenda como cenário bonito, mas perceber como o território organiza o que pode ser cultivado, transformado e servido.

VER ANTES DE PROVAR

Numa viagem gastronômica, somos treinados a olhar para o prato final. Babylonstoren inverte essa sequência.

Antes da mesa, há terra.

Antes da receita, há estação.

Antes do ingrediente, há cultivo.

O galo atravessa o jardim e recorda a presença cotidiana dos animais na propriedade.
O galo atravessa o jardim e recorda a presença cotidiana dos animais na propriedade.Arquivo WCE · edição 2025
O sorvete transforma produto e pausa em um gesto simples de hospitalidade.
O sorvete transforma produto e pausa em um gesto simples de hospitalidade.Arquivo WCE · edição 2025

Essa inversão muda a forma de provar. Quando vemos onde algo cresce, percebemos a cozinha de outra maneira. O produto deixa de parecer um objeto isolado e passa a carregar clima, trabalho e tempo.

A experiência não precisava de uma explicação técnica constante. O próprio percurso criava conexões.

A horta conduzia à cozinha. O jardim fazia sentido ao lado das ervas. O pão ganhava outra dimensão quando inserido num ambiente em que produção e hospitalidade estavam próximas.

A FAZENDA COMO ECOSSISTEMA

Babylonstoren não funciona apenas como propriedade agrícola ou destino gastronômico. O que impressiona é justamente a integração.

Há agricultura, design, hospitalidade, restauração, varejo, vinho e paisagem. Essa combinação poderia facilmente se tornar artificial se cada parte funcionasse apenas como atração. O que vimos foi um sistema suficientemente coerente para que as diferentes camadas conversassem.

A charcutaria exposta liga criação, conservação e cozinha dentro do mesmo percurso.
A charcutaria exposta liga criação, conservação e cozinha dentro do mesmo percurso.Arquivo WCE · edição 2025

Isso nos interessava porque a WCE também procura relações, não categorias isoladas.

Não existe “a parte do vinho”, “a parte do jardim” e “a parte da comida” como universos totalmente separados. Tudo pode ser lido como continuação de uma mesma pergunta: de onde vem aquilo que estamos prestes a consumir?

Antes da mesa, há terra. Antes da receita, há estação. Antes do ingrediente, há cultivo.

Uma ideia que permaneceu depois da viagem

A ORIGEM NÃO É ROMÂNTICA

É importante, porém, não transformar farm-to-table numa imagem idealizada.

Origem envolve escolha, sazonalidade, disponibilidade, trabalho e limites. Nem tudo está disponível o tempo todo. Nem todo ingrediente precisa percorrer poucos metros para ter valor. E uma propriedade real existe para além da fotografia perfeita da horta.

O que Babylonstoren oferece de mais interessante é a possibilidade de tornar esse processo visível.

Os grãos em movimento mostram a torra como transformação concreta antes da xícara.
Os grãos em movimento mostram a torra como transformação concreta antes da xícara.Arquivo WCE · edição 2025

Quando conseguimos ver parte da cadeia, começamos a perguntar melhor sobre o que comemos.

Essa curiosidade acompanharia outros momentos da viagem — no vinho, na pesca, no café, no solo de Waterford e, sobretudo, na cozinha privada com Reuben Riffel.

A ORIGEM PREPARA O ENCONTRO

Na memória da edição, Babylonstoren também funciona como preparação para uma das experiências mais íntimas da viagem.

Depois de olhar para ingredientes e cultivo, entrar na cozinha de Reuben no dia seguinte ganhou ainda mais força. A conversa sobre produto já não começava do zero.

A fazenda havia criado repertório.

É nesse tipo de continuidade que um roteiro deixa de ser coleção de atividades e começa a formar narrativa.

O QUE FICOU

Babylonstoren permaneceu menos como “atração imperdível” e mais como uma forma de organizar perguntas.

De onde vem?

Quem cultiva?

O que a estação permite?

O que muda quando vemos o ingrediente antes de ele ser transformado?

Ao caminhar entre jardim, horta, animais, pão e cozinha, percebemos que a origem pode ser percorrida.

E quando isso acontece, a mesa deixa de ser o começo da história.

Passa a ser uma de suas consequências.

O QUE LEVAMOS CONOSCO

Babylonstoren permaneceu menos como uma atração e mais como uma forma de organizar perguntas: de onde vem, quem cultiva, o que a estação permite e o que muda quando vemos o ingrediente antes de ele ser transformado.

O jardim e a fazenda fizeram a mesa deixar de parecer o começo da história. Passou a ser uma consequência de cultivo, trabalho, tempo e escolhas — e prepararam o olhar para encontros que viriam depois.