Depois de uma manhã de cozinha Cape Malay, uma pausa para café e as primeiras horas caminhando pela cidade, chegamos ao COY com uma sensação difícil de separar do lugar: Cape Town já tinha começado a se revelar por camadas. À noite, diante do Atlântico, a mesa acrescentou outra linguagem — contemporânea, precisa e profundamente ligada ao produto marinho.

Ryan Cole estava no centro dessa leitura. O interesse não era apenas conhecer um chef ou acrescentar um nome reconhecido ao programa. Era perceber como uma cozinha autoral pode traduzir o lugar onde está. No COY, o mar deixava de ser cenário e passava a fazer parte da maneira de pensar ingredientes, texturas, ritmo e apresentação.

O primeiro jantar precisava fazer uma coisa muito específica: inaugurar a viagem sem tentar explicá-la inteira. E foi justamente isso que aconteceu.

Uma cidade que chega pelo mar

Cape Town vive numa relação constante com o oceano. Porto, pesca, vento, marina, praias, correntes e produto marinho atravessam a vida da cidade. Mas existe uma diferença entre observar essa geografia e prová-la.

À mesa, essa diferença tornou-se clara.

A cozinha não precisava recorrer a uma ideia folclórica de “comida típica” para dizer de onde vinha. O lugar aparecia em escolhas mais sutis: no protagonismo do produto, na relação com a costa, na leveza de determinadas preparações e na forma contemporânea de apresentar sabores ligados ao sul do continente.

Prato de peixe servido no COY.
Prato de peixe servido no COY.

Era exatamente o tipo de início que procurávamos. Não uma representação turística da África do Sul, mas uma cozinha que assumia estar no presente.

Ryan Cole e a cozinha como leitura

Há chefs que entram numa viagem pela celebridade. Outros entram porque ajudam a compreender um território. Para nós, Ryan Cole pertence à segunda categoria.

O que nos interessava não era uma biografia extensa, mas o que sua cozinha conseguia revelar naquele momento. Depois de começarmos o dia com receitas transmitidas dentro de uma comunidade, encerrá-lo com uma leitura contemporânea do oceano criou um contraste poderoso: memória e invenção não apareciam como opostos. Eram duas formas de continuar falando do Cabo.

Essa talvez tenha sido uma das primeiras descobertas da edição. Uma gastronomia verdadeiramente ligada ao território não precisa repetir o passado. Pode reconhecê-lo, transformá-lo e produzir uma nova linguagem.

Uma gastronomia verdadeiramente ligada ao território não precisa repetir o passado. Pode reconhecê-lo, transformá-lo e produzir uma nova linguagem.

Síntese editorial WCE · memória da edição de 2025

A primeira mesa

Uma viagem como a Cooking in South Africa não começa quando o avião pousa. Começa quando o grupo finalmente se reúne em torno de uma mesa.

Naquela noite, ainda havia cansaço de viagem, primeiras conversas, gente que se conhecia pouco e a expectativa natural de quem tinha pela frente vários dias de experiências. Por isso, o jantar não podia ser excessivamente cerimonial. Precisava ter presença sem peso.

O COY ofereceu esse equilíbrio.

Sobremesa servida no jantar do COY.
Sobremesa servida no jantar do COY.
Barcos e edifícios iluminados no porto à noite.
Barcos e edifícios iluminados no porto à noite.

O Atlântico estava ali. A cidade também. A comida dava assunto sem exigir silêncio reverencial. Aos poucos, o grupo começava a deixar de ser uma lista de nomes e passava a formar uma mesa.

É difícil medir esse tipo de transformação em um programa. Ela não aparece na descrição de uma atividade, não cabe numa linha de horário e não pode ser contratada de forma mecânica. Mas é uma das coisas que mais definem uma experiência.

O QUE LEVAMOS CONOSCO

O primeiro jantar não precisou explicar toda a África do Sul. Precisou apenas abrir a viagem com a linguagem certa. No COY, o oceano entrou pela cozinha, a cidade apareceu no presente e o grupo começou a deixar de ser uma lista de nomes para se transformar em mesa.

Ao longo dos dias seguintes, o mar voltaria pela costa, pelos produtos, pelos pinguins e pela Península. Mas foi ali que entendemos pela primeira vez que Cape Town seria lida por relações — entre território, cozinha e pessoas — e não por uma coleção de endereços.