Depois de uma manhã de cozinha Cape Malay, uma pausa para café e as primeiras horas caminhando pela cidade, chegamos ao COY com uma sensação difícil de separar do lugar: Cape Town já tinha começado a se revelar por camadas. À noite, diante do Atlântico, a mesa acrescentou outra linguagem — contemporânea, precisa e profundamente ligada ao produto marinho.

Ryan Cole estava no centro dessa leitura. O interesse não era apenas conhecer um chef ou acrescentar um nome reconhecido ao programa. Era perceber como uma cozinha autoral pode traduzir o lugar onde está. No COY, o mar deixava de ser cenário e passava a fazer parte da maneira de pensar ingredientes, texturas, ritmo e apresentação.

O primeiro jantar precisava fazer uma coisa muito específica: inaugurar a viagem sem tentar explicá-la inteira. E foi justamente isso que aconteceu.

UMA CIDADE QUE CHEGA PELO MAR

Cape Town vive numa relação constante com o oceano. Porto, pesca, vento, marina, praias, correntes e produto marinho atravessam a vida da cidade. Mas existe uma diferença entre observar essa geografia e prová-la.

À mesa, essa diferença tornou-se clara.

O peixe ocupa o centro do prato sem perder a relação com ervas, acidez e produto local.
O peixe ocupa o centro do prato sem perder a relação com ervas, acidez e produto local.Arquivo WCE · edição 2025
A sobremesa encerra o menu com contraste entre crocância, cremosidade e temperatura.
A sobremesa encerra o menu com contraste entre crocância, cremosidade e temperatura.Arquivo WCE · edição 2025

A cozinha não precisava recorrer a uma ideia folclórica de “comida típica” para dizer de onde vinha. O lugar aparecia em escolhas mais sutis: no protagonismo do produto, na relação com a costa, na leveza de determinadas preparações e na forma contemporânea de apresentar sabores ligados ao sul do continente.

Era exatamente o tipo de início que procurávamos. Não uma representação turística da África do Sul, mas uma cozinha que assumia estar no presente.

RYAN COLE E A COZINHA COMO LEITURA

Há chefs que entram numa viagem pela celebridade. Outros entram porque ajudam a compreender um território. Para nós, Ryan Cole pertence à segunda categoria.

O que nos interessava não era uma biografia extensa, mas o que sua cozinha conseguia revelar naquele momento. Depois de começarmos o dia com receitas transmitidas dentro de uma comunidade, encerrá-lo com uma leitura contemporânea do oceano criou um contraste poderoso: memória e invenção não apareciam como opostos. Eram duas formas de continuar falando do Cabo.

Do salão, o porto iluminado recorda que o Atlântico permaneceu presente durante todo o jantar.
Do salão, o porto iluminado recorda que o Atlântico permaneceu presente durante todo o jantar.Arquivo WCE · edição 2025

Essa talvez tenha sido uma das primeiras descobertas da edição. Uma gastronomia verdadeiramente ligada ao território não precisa repetir o passado. Pode reconhecê-lo, transformá-lo e produzir uma nova linguagem.

Uma gastronomia verdadeiramente ligada ao território não precisa repetir o passado. Pode reconhecê-lo, transformá-lo e produzir uma nova linguagem.

Uma ideia que permaneceu depois da viagem

A PRIMEIRA MESA

Uma viagem como a Cooking in South Africa não começa quando o avião pousa. Começa quando o grupo finalmente se reúne em torno de uma mesa.

Naquela noite, ainda havia cansaço de viagem, primeiras conversas, gente que se conhecia pouco e a expectativa natural de quem tinha pela frente vários dias de experiências. Por isso, o jantar não podia ser excessivamente cerimonial. Precisava ter presença sem peso.

O COY ofereceu esse equilíbrio.

O Atlântico estava ali. A cidade também. A comida dava assunto sem exigir silêncio reverencial. Aos poucos, o grupo começava a deixar de ser uma lista de nomes e passava a formar uma mesa.

É difícil medir esse tipo de transformação em um programa. Ela não aparece na descrição de uma atividade, não cabe numa linha de horário e não pode ser contratada de forma mecânica. Mas é uma das coisas que mais definem uma experiência.

O QUE FICOU

Quando pensamos naquele primeiro jantar, não lembramos apenas dos pratos. Lembramos da sensação de abertura.

O oceano, que voltaria várias vezes ao longo da viagem, apareceu logo ali como uma das grandes presenças do Cabo. Primeiro diante da mesa; depois na costa, nos produtos, nos pinguins, nas falésias e no último movimento pela Península.

O COY nos mostrou algo que se confirmaria nos dias seguintes: um destino se torna mais interessante quando deixamos de colecionar endereços e começamos a perceber relações.

Naquela noite, a relação era simples e profunda: cidade, mar, cozinha e pessoas sentadas juntas pela primeira vez.

A viagem tinha começado.

O QUE LEVAMOS CONOSCO

O primeiro jantar não precisou explicar toda a África do Sul. Precisou apenas abrir a viagem com a linguagem certa. No COY, o oceano entrou pela cozinha, a cidade apareceu no presente e o grupo começou a deixar de ser uma lista de nomes para se transformar em mesa.

Ao longo dos dias seguintes, o mar voltaria pela costa, pelos produtos, pelos pinguins e pela Península. Mas foi ali que entendemos pela primeira vez que Cape Town seria lida por relações — entre território, cozinha e pessoas — e não por uma coleção de endereços.